SEÇÃO Estudos Bíblicos
CATEGORIA Ética e Filosofia    -
     Sexta, 24 de Outubro de 2014

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UMA ÉTICA DO SUICIDIO

Publicado em 10/3/2002


Trecho do livro O Cristão e a Eutanásia, o Suicidio e a Pena Capital

Segundo alguns filósofos existencialistas contemporâneos, o suicídio é o maior problema filosófico. A vida é absurda, uma bolha vazia no mar do nada, e é uma questão séria quanto à sua continuação ou não. Cebes perguntou a Sócrates por que, se a morte era tão bem?aventurada, o homem não poderia ser seu benfeitor. 0 materialista romano, Lucrécio, argumentava que a morte era nada, e, seguindo ele, alguns concluíram que o suicídio é uma opção viável para a levar a efeito a felicidade desta condição de nada.

Outros filósofos notáveis, tais como Schopenhauer soaram notas pessimistas, que mais do que flertam com o suicídio. E a julgar pelo número crescente de suicídios e tentativas de suicídios pelos homens contemporâneos, o suicídio é uma opção viva para um número considerável de pessoas.

Naturalmente, a questão ética não é aquilo que os homens estão fazendo, mas, sim, o que devem estar fazendo. Daí, a pergunta aqui não é porque os homens se suicidam, mas se devem fazê?lo, a quando.


A. O Suicídio para Si mesmo

Há duas razões dominantes para o suicídio, ou tirar a própria vida: pode ser feito para si mesmo, ou pode ser feito em prol dos outros. 0 primeiro será chamado suicídio egoísta. Em qualquer ocasião, é moralmente certo tirar a própria vida nos seus próprios interesses? Ou, ainda mais basicamente, tirar a própria vida é, em qualquer tempo, realmente do interesse da pessoa?

1. O Suicídio para Si Mesmo Nâo Pode Ser Justificado Filosoficamente ? A despeito da tentativa fútil dos estóicos de justificar o suicídio, e a despeito da propensidade pessimista de Schopenhauer a ele, faltam ao suicídio, sadios fundamentos filosóficos. Talvez a melhor evidéncia para esta conclusão venha dos filósofos existencialistas contemporâneos que consideram que a questão do suicídio é a mais básica ? e cuja filosofia lhes dá mais razão para cometê?lo. Entre aqueles existencialistas ateus há uma forte rejeição do suicídio. O suicídio, diz Sartre, é errado porque é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. É uma afirmação do ser mediante a qual a pessoa finalmente nega seu ser. Ou, nas palavras corriqueiras, o suicídio é um ato do vivente que destrói a sua vida.

Definir o suicídio desta maneira ressalta precisamente quão irracional o ato realmente é. É um ato arrazoado que destruiria o raciocínio da pessoa. Como tal, o suicídio é uma ação absurda do raciocínio, porque é a "razão" que se destrói a si mesma ao afirmar a si mesma. Na realidade, não há nenhuma razão verdadeira para o suicídio. É um ato anti-racional ao qual falta uma verdadeira base lógica .

2. O Suicídio para Si Mesmo Não Pode Ser Justificado Eticamente - A imoralidade do suicídio pode ser vista pela análise do seu alegado motivo. Segundo aqueles que tém sido tentados pelo suicídio, e/ou os que o tentaram, o suicídio tem para eles mesmos, parecido ser a melhor saída da sua situação. Quão paradoxal, porém, é que alguém conclua para si que a melhor coisa que pode fazer para si mesmo é destruir a si mesmo. Como pode a melhor coisa para si mesmo ser o ato final contra si mesmo? Decerto é um uso perverso do raciocínio que destruiria o raciocínio. Pode alguém, em qualquer circunstância, estar agindo nos seus próprios interesses, quando seu plano é destruir a si mesmo? 0 suicídio não é o interesse?próprio. Não pode ser! É uma falta de interesse apropriado em si mesmo. A única maneira de alguém demonstrar interesse em si mesmo é preservar a si mesmo. 0 suicídio é exatamente o oposto. É realmente o ódio a si mesmo. E o ódio?próprio é irracional, absurdo. É, pois, uma afirmação do próprio eu numa tentativa de renegar?se; é a escolha que elimina todas as escolhas.

Com base nesta análise da irracionalidade do suicídio, pode ser deduzido que ninguém nunca determina realmente o suicídio, embora alguns o desejem. Ou seja: quando um homem, se suicida, fá?lo contra sua vontade básica para viver. O suicídio é baseado no desejo do homem de ser aliviado do tipo (miserável) de existéncia que tem, a despeito de fato de que tenha vontade da existéncia propriamente dita. Conforme disse Agostinho, o suicídio é um fracasso da coragem. É contrário ao ímpeto básico para a existência; o suicídio é um desejo da não?existência. É o "escapismo" existencial. Expressado de modo breve, o suicídio não é um problema filosófico de modo algum; é um problema moral e/ou psicológico. Ou seja: os homens não tentam o suicídio porque é a coisa mais razoável para fazer, mas sim, porque é a saída "fácil" do seu problema. E quando alguém pensa que a saída mais fácil da sua situação é atacar?se a si mesmo fatalmente, ao invés de atacar o problema, neste caso tem um problema moral, senão um problema psicológico.

Em resumo: não há maneira de suicidar?se para si mesmo, visto que o suicídio é o ato mais básico contra si mesmo, que pode ser cometido. Logo, o suicídio pelo alegado motivo moral de interesse?próprio é excluído. 0 suicídio egoísta, como outras forma do egoísmo, não visa realmente aos melhores interesses da pessoa. 0 verdadeiro amor? próprio nunca desejará eliminar o próprio?eu que ama.


Mesmo assim, alguém talvez argumente que o suicídio, como a eutanásia, possa ser justificado se a pessoa chegou a uma etapa sub?humana ou "vegetativa" da existência. Por que não atirar em si mesmo para evitar a continuação da sua própria desumanidade? Se é moralmente certo ser o benfeitor da misericórdia para outro "vegetal" humano, então para que não para si mesmo? A razão é bem simples: ninguém capaz de fazer um raciocínio que o leve à conclusão de que deve terminar sua vida, perdeu a sua humanidade. Pode ter perdido sua saúde mental (ou parte dela), mas ainda é humano. E se ainda é suficientemente humano para raciocinar (embora erroneamente) que a melhor coisa que pode fazer em prol da sua vida é terminá?la, logo, ainda não é sub?humano. Segue?se daí que, porque, não é sub?humano, não há justificativa para praticar a eutanásia em si mesmo, porque a eutanásia é justificada somente quando mais vidas humanas podem ser salvas par ela. A eutanásia de si mesmo é uma contradição em termos, porque o ato final contra si mesmo não pode, ao mesmo tempo, ser um ato em prol de si mesmo.

No que diz respeito às Escrituras, o suicídio se classifica na proibição do assassinato. É. pelo menos tão errado tirar ilicitamente sua própria vida quanto o de tirar a vida doutra pessoa. A pessoa deve amar?se a si mesma bem coma amar aos outros, conforme está subentendido no mandamento de amar aos outros como a si mesmo (Mt 22: 39; ef. Ef 5:29) 9 E se amar a outra pessoa subentende que não se deve assassiná?la, amar a si mesmo decerto subentende a mesma coisa no que diz respeito ao suicídio. 0 suicídio é errado porque é o assassinato de um ser humano feito à imagem a semelhança de Deus, ainda que este indivíduo seja a própria pessoa.

B - O Suicidio em Prol dos Outros

Visto que o suicídio egoísta é errado, falta perguntar se o suicídio sacrificial.é certo nalgum caso. Ou seja: é certo, nalgum caso, tirar sua própria vida por amor à conservação de outras vidas? A resposta dependerá de se é, realmente, feito para salvar outras vidas.

1. Nem Todo Assim?Chamado Suicídio "Sacrificial" É Justificável - Há casos em que sacrificar sua vida em prol doutros homens não é realmente moralmente certo. Paulo deu a entender que seria possível entregar seu próprio corpo para ser queimado e ainda lhe faltar o amor verdadeiro (1 Co 13:3). Noutras palavras, nem toda morte "pelos outros" é, realmente, em prol dos outros. Pode ser uma tentativa para atrair a atenção a si mesmo, ou gratificar alguma outra necessidade egoísta. 0 suicídio pode ser um teste de sinceridade da pessoa, mas a sinceridade não é prova alguma da moralidade. Os homens podem odiar sinceramente, bem coma amar sinceramente. Os homens podem fazer sinceramente aquilo que desejam fazer, ao invés daquilo que devem fazer. Que futilidade quando um homem prova sua sinceridade pela sua própria causa egoísta mediante o suicídio! Pode ser admirável sacrificar sua vida por uma causa, mas não é necessariamente moral. Se, pois, a causa da pessoa é vã, seu sacrifício também é vão, quer seja o sacrifício supremo, quer não.

Além disto, sacrificar sua vida deliberadamente por um animal, ou par objetos não pessoais (riquezas ou o que for), não é moralmente certo. As pessoas são mais valiosas do que as coisas. As pessoas são de valor intrínseco; as coisas tèm valor instrumental para pessoas. 0 homem é um fim, mas animais e coisas são meios para fins humanos. Logo, o suicídio sacrificial em prol de um objeto não?humano seria errado, porque sacrifica o valor superior (uma vida humana), em prol da vida inferior (uma vida sub?humana).

2. Determinado tipo de Suicídio Sacrificial É Justificável - Nem todo o suicídio é errado. Conforme nota a Bíbha, alguns até mesmo ousam morrer por bons homens (Rm 5:7). A história, especialmente a história militar, contém muitos exemplos de homens dispostos a morrer pelos outros. A história da morte de Sansão parece ser uma de um suicídio divinamente aprovado (Jz 16 :30). Há outras intimações no Novo Testamento de um suicídio sacrificial (cf. Rm 5:7). Paulo indicou sua disposição de sacrificar sua vida por Cristo (Fp 1:23). No entanto, a prova real de que o suicídio sacrificial está moralmente certo é a morte de Cristo que veio ". . . dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10: 45). Jesus disse: "Eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mini; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo 10:18). Decerto este é o exemplo supremo do sacrifício supremo. Foi em vista disto que João escreveu: "Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos" (1 Jo 3:16). Realmente, é á luz da cruz de Cristo que a forma mais alta do amor é revelada. "Ninguém tem maior amor do que este," disse Jesus, "de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15:13). Este tipo de "suicídio" sacrificial não somente não é imoral; é o ato moral mais alto possível. Vai além das exigências da lei moral, que exige que a pessoa ame seu próximo apenas como a si mesmo. O "suicídio" sacrificial verdadeiro é mais do que isso; é amar aos outros mais do que a si mesmo. Não há amor maior.

Talvez alguns objetem ao use da palavra "suicídio" nesta conexão. Podem argumentar que o sacrifício da sua vida em prol doutras pessoas não é suicídio. O soldado que cai por cima de uma granada para salvar seus companheiros não está se suicidando, pode ser argumentado. É verdade. Há uma diferença entre o suicídio egoísta e aquilo que chamamos de suicídio sacrificial, e somente este último é moralmente justificável. Se a pessoa quer usar a palavra "suicídio" ou não, a respeito de tal sacrifício, é questão da escolha de palavras. Seja qual for o nome que se lhe dá, é um ato de iniciativa própria de salvar outras vidas por meio de sacrificar sua própria. É deixar sua própria vida, de modo intencional porém justificável. Tendo em vista este fato, parece apropriado chamá?to de "suicídio sacrificial."



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