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     Quinta, 23 de Outubro de 2014

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O Canto Gregoriano (História)

Publicado em 3/5/2008

Enviado por: João Rios
JesusSite

O Canto Gregoriano

Autor: Luiz Carlos Peres


Mas, o que é o canto gregoriano?

Entre os judeus a música era um elemento importante nas cerimônias religiosas. Ora, os primeiros cristãos eram judeus e abraçaram o cristianismo sem considerar tal opção um rompimento com o judaísmo,mas tão somente, a continuação da religião de Israel, após o cumprimento da promessa da vinda do Messias.

Cristo freqüentava o templo e as sinagogas, assim como os apóstolos. Nada mais natural que, no seu culto, enriquecido pela Eucaristia, os primeiros cristãos usassem os cânticos judaicos e fossem novos cânticos, dentro do mesmo estilo de melodia. Com a difusão do Cristianismo entre todos os povos conhecidos, passou a liturgia cristã a receber, também destes, a influência de sua música.

Até o século IIIº, a língua usada nas cerimônias era o grego. A partir de então, o latim tem sido a língua oficial do Rito Romano. Os mais antigos cantos cristãos são os salmos, provenientes diretamente do culto judaico, seguidos depois pela antifonia e pela hinódia. O nome Gregoriano vem do papa S. Gregório Magno, que regulamentou o canto litúrgico, dando uniformidade à sua prática em toda a Igreja. O Canto Gregoriano, escrito com notação quadrada, sem compassos nem valor de tempos definidos, carecia também de estabelecer a altura do som de cada nota, servindo apenas como processo mnemônico para a execução de cantos, previamente aprendidos por tradição.

Somente no século Xº é que o monge beneditino Guido d'Arezzo, conseguiu estabelecer uma definição clara dos intervalos entre os sons de cada nota, possibilitando, a partir de então, o grande salto que permitiu o surgimento da polifonia e da música que hoje conhecemos.

Os mais antigos cantos ressentem o influxo das antigas melodias hebráicas e greco-romanas. O Canto Gregoriano é assim chamado "Canto de Coro" (Cantus Choralis), cantus firmus, cantus planus, canto chão.


O Canto Gregoriano é o Canto Oficial da Igreja, monódico, diatônico, sem acompanhamento, composto em determinadas escalas (modos) e em ritmo livre.

a) Canto Oficial da Igreja: pela Tradição, Perfeição, Espírito Musical.
b) Monódico: a uma só voz, em uníssono.
c) Diatônico: sem alterações cromáticas; com exceção do Si Bemol, não há outros bemóis ou sustenidos.
d) Sem acompanhamento: assim ele foi composto; apenas se tolera um leve acompanhamento de órgão ou harmônico, para sustentar as vozes, impedindo desafinação.
e) Em determinadas escalas ou modos: estes são diferentes das escalas comuns da música profana.
f) Em ritmo livre: o que significa ausência de compasso fixo. Os impulsos binários e ternários misturam-se livremente, como no ritmo da oratória.

Difere pois, o Canto Gregoriano da Música Profana. Não somente pela monodia e diatonia, senão principalmente pelos modos e ritmo livre. Na música, o ritmo métrico ou medido é o mais habitual: há então repetição constante e isócrona dos impulsos e acentos como no compasso da dança, marcha, etc.



Canto Gregoriano continua sendo o canto oficial da liturgia romana


http://blog.bibliacatolica.com.br/2006/06/13/canto-gregoriano-continua-sendo-o-canto-oficial-da-liturgia-romana/

Entrevista com a pesquisadora e musicista Julieta Veja García

MÉXICO, D.F. terça-feira, 13 de junho de 2006 (ZENIT.org-El Observador).- O canto gregoriano continua sendo o canto oficial da Igreja Católica de rito latino, recorda Julieta Veja García, licenciada em Filosofia e Letras -especialidade em História da Arte- e doutora em Geografia e História dentro da área de Musicologia.

É titulada profissional como professora de piano pelo Conservatório Superior de Música de Granada (Espanha) e diretora da "Schola Gregoriana llíberis" desde 1986.

Suas linhas de investigação se centram no Canto Gregoriano: patrimônio, teoria e prática, e a música nos conventos de clausura e outros meios eclesiásticos.


— O que é o "Canto Gregoriano"?

Julieta Vega García: É um canto milenar, patrimônio cultural da humanidade e continua sendo o canto oficial da liturgia romana, como recordou o próprio João Paulo II em 2003 em um Quirógrafo sobre a música sacra - por ocasião do centenário do Motu Proprio "Tra lê sollecitudini", em que recordava as normas do Vaticano II acerca da música litúrgica.

— Por que se chama assim?

Julieta Vega García: Porque se atribui sua autoria ao Papa São Gregório Magno. Um dos pontos que mais chamam a atenção em seu fecundo pontificado é seu zelo pelo aperfeiçoamento da liturgia, alcançando grande importância seu impulso na organização definitiva do canto litúrgico, que se conhece sob o nome de canto gregoriano. Aos 35 anos, ele começou a dedicar-se ao serviço de Deus. A ele se deve a primeira grande reforma da Liturgia, de maneira especial do canto (daí o nome de canto gregoriano, que está na base da liturgia ocidental).

— Quando surgiu o Canto Gregoriano?

Julieta Vega García: Sua origem está na salmodia judaica, mas as primeiras partituras que se conservam foram escritas no Renascimento Carolíngio, no final do século IX.

— Qual é a relação entre o Canto Ambrosiano e o Canto Gregoriano?

Julieta Vega García: Antes da unificação que se produziu nos séculos IX-XI, cada região tinha suas próprias tradições: o Ambrosiano em Milão, o visigótico-mozárabe na Espanha, o velho romano, o galiciano… O gregoriano parece ser uma síntese entre galicano e velho romano. Em determinadas peças, há muita relação entre o Ambrosiano e o Gregoriano, mas o ambrosiano é um pouco mais ornamentado melodicamente.

— Existe atualmente produção de Canto Gregoriano? Qual é a aceitação social que se lhe outorga?

Julieta Vega García: Realmente a produção (entendida como composição) é inexistente. Há boa aceitação social deste antigo repertório, tanto em concertos como em missas, conferências, assistência e cursos, compra de música gravada, entre outros tipos de consumo



O CANTO GREGORIANO

Por Afonso Carlos Neves

http://www.willisharmanhouse.com.br/open.php?id_ses=3&pk=81&sub=true&canal=3

Palavras e notas se unem, tendo um resultado final captado através da percepção de uma música que parece transportar o ouvinte a uma dimensão diferente da habitual.

Autor: Associação Paulista de Medicina

O Canto Gregoriano tem sua denominação provinda do papa São Gregório Magno que, tendo nascido no ano de 540, governou a Igreja de 590 a 604. Personalidade impar na história, Gregório foi o único papa além de Leão Magno a receber esse título, o qual significa "Grande". Mesmo sendo discutível qual o real grau de envolvimento dele com essa música, que tem em seu nome uma marca única, a existência dessa associação dá-nos uma idéia da presença de Gregório em sua época, cuja compreensão pode ajudar-nos a conhecer melhor o Canto Gregoriano.

Gregório foi o primeiro monge beneditino a tornar-se papa, tendo escrito diversas obras, entre elas uma que narra a vida de São Bento, o fundador de sua Ordem. Para nos situarmos melhor, é interessante observar que o ano em que nasceu Gregório (540) é provavelmente o mesmo em que São Bento escreveu a sua Regra, a qual, até hoje, serve como referência básica para a vida de diversos grupos monásticos. Tendo nascido apenas quatro anos após o fim do Império Romano do Ocidente, ou seja, em 480, Bento parecia já estar sendo destinado a iniciar um cativante movimento religioso que cobriria toda a Europa pelos séculos vindouros e seria a salvaguarda da Cultura Ocidental durante a Idade Média.

Quando Gregório escreveu sobre Bento, ele usou dados que obteve de pessoas que conviveram com o santo, já que este morreu no ano de 547. De qualquer forma, Gregório, enquanto monge, foi disciplinado pela Regra Beneditina, a qual determina que os salmos sejam cantados em sete momentos no transcorrer do dia, seguindo-se determinadas normas. É difícil sabermos com exatidão, mas provavelmente esses cantos talvez já tivessem a conformação com a qual depois passaram a ser classificados como "Gregorianos". São Bento, por sua vez, foi precedido por outros mestres que já vinham aos poucos tendendo a organizar os monges em comunidades; estes tiveram como antecessores os chamados Padres do Deserto, que remontam aos primeiros séculos do Cristianismo. Portanto, observa-se que as origens do Canto Gregoriano se perdem nos tempos, já que não havia notações musicais no início da Era Cristã. No entanto, é provável a importância dos cantos das sinagogas para essa formação, acrescido de influências gregas e romanas. Ao ouvido atendo, pode-se perceber, por exemplo, nos melismas - as repetições de uma mesma letra em notas variadas - certo clima oriental.

Esse canto "monofônico", assim chamado por ser cantado a uma só voz, deve ser entendido como uma "prece cantada", estando, portanto, estritamente ligado a uma atividade religiosa, a qual tem suas características próprias. Sendo cantado em uníssono, cada voz se dilui no todo, que busca sua elevação espiritual no louvor divino; já, no fim da Idade Média, o aparecimento da polifonia, com o destaque de várias vozes, embora ganhando nova estética, de algum modo perde essa unicidade transcendental primeva.

Outro elemento que é bastante próprio do Gregoriano é o Latim. Considerada por muitos como língua morta, se observada pelo ponto de vista utilitarista, a língua latina tem toda uma riqueza que permite sua adequação às notas do Canto. Palavras e notas se unem, tendo um resultado final captado através da percepção de uma música que parece transportar o ouvinte a uma dimensão diferente da habitual. Há que se notar que essas construções musicais seguem os diferentes aspectos da Liturgia, no transcorrer do dia e do ano. Outra característica é a peculiar forma de notação musical que usa quatro pautas e diversos sinais exclusivos do Gregoriano.

Todos esses dados são elementos que ajudam a compreender esse Canto, porém o melhor a ser feito é ouvi-lo como diz São Bento, quando fala ao discípulo, como escutar as palavras de seu mestre: "com os ouvidos do coração". Para uns tem efeito terapêutico, para outros é oração e para alguns é só música. De qualquer forma, há que se valorizar essa riqueza única milenar da nossa Cultura Ocidental.



História da Música Ocidental

http://www.movimento.com/especial/basica/2.asp


1 - Introdução


O termo "medieval" vem da expressão latina "medium aevum" (época intermediária) dada pelos historiadores renascentistas ao período compreendido entre o desaparecimento do Império Romano e os novos interesses pela cultura greco-romana no século 15. O regime sócio-econômico predominante foi o feudalismo, caracterizado pela exploração da terra e por uma complexa hierarquia político-militar entre as pessoas. Este regime dividiu a Europa em minúsculos territórios. O fator de coesão era a Igreja Católica que, de fato, decidia o destino de todos.

É um engano qualificar este período como a "Idade das Trevas": ao contrário, a sua rica produção cultural sintetizou os conhecimentos greco-romanos, germânicos, árabes, judaico-cristãos, bizantinos, etc., manifestou-se em todas as áreas artísticas (arquitetura, marcenaria, artes visuais como pintura, escultura, vitrais, iluminuras etc., literatura como canções de gesta, romances de cavalaria, baladas, fábulas etc.) e continuou a investigar os princípios da ciência e da filosofia. Os seminários e conventos mantiveram gigantescas bibliotecas. Enfim, este período, mesmo com suas guerras, epidemias, fanatismos, misticismos, etc. preservou a civilização humana na sua integridade. O campo musical nos dá uma pequena mostra da riqueza cultural do período.


2 - Música religiosa medieval


As músicas mais antigas, que podemos executar com muita fidelidade, são os cantos gregorianos criados para o culto católico.

Da música cristã primitiva só nos restam os poemas, mas, mesmo assim, os pesquisadores percebem que a origem dos cânticos era muito diversificada:

• salmos e hinos religiosos dos judeus;

• canções profanas de outras culturas (Grécia, Roma, entre outras) adaptadas ao pensamento cristão

• criações próprias cristãs

Até o século 4, todos os fiéis participavam das várias cerimônias, cantando, batendo as mãos e os pés, dançando discretamente e até tocando instrumentos, tais como: harpa, saltério, órgão, trompete, sinos etc.

No século 5, a Igreja Católica, querendo uniformizar o seu culto em todos os lugares, tratou de desenvolver um estilo único e criar uma escritura musical exata. Para suplementar isto fundou a "Schola Cantorum", em Roma, onde os padres-compositores deveriam estudar. A partir de então um coro profissional passou a exercer todas as funções musicais nas cerimônias. Instrumentos não eram mais permitidos, pois foram considerados pelo clero, como terrenos ou demoníacos, enquanto a voz humana foi valorizada por ser uma criação divina. Mesmo assim, algum instrumento era utilizado, com ou sem autorização dos religiosos, para sustentar a correta afinação do coro. Depois de muitos debates, o canto gregoriano foi oficializado no início do século 7.


2.1 - Ars Antiqua - séculos 7 a 13


A música medieval denominada "Ars Antiqua" (arte antiga) é aquela que abrange desde o canto gregoriano até a invenção do moteto, dos séculos 7 ao 13.


2.1.a - Características


A música religiosa deste período é estreitamente ligada ao canto gregorian que serve de base para todas as composições. Sua sonoridade é muito diferente da nossa realidade, mas, também por causa disto, os cantos gregorianos nos envolvem, criando um clima de tranqüilidade e as primeiras experimentações do organum nos aparecem como curiosidades experimentais e ruidosas. Nesta época criaram a terminologia musical (incluindo o nome das notas), criaram a grafia e desenvolveram as primeiras teorias musicais ocidentais.


2.1.b - Canto Gregoriano - século 7


Gregório I, papa entre 590 a 604, e outros compilaram, compuseram e organizaram vários poemas e canções, que foram reunidos nos livros:

− Graduale (cantos solos e corais para todas as festas católicas)
− Kyriale (cantos para as partes fixas das missas)
− Antiphonale (cantos, hinos e orações dos monges)

Esta música tem as seguintes características:

− é o canto oficial da Igreja Católica;
− o texto é em latim;
− a importância é dada ao texto e não à música (objetivo é propagar a fé e não fazer um recital);

deve ser cantado, obrigatoriamente, só por homens (mas recentes pesquisas em conventos, descobriram milhares de cânticos compostos e interpretados por mulheres);
− não pode ter acompanhamento instrumental de qualquer espécie;
− é prosódico (um tipo de canto falado);
− melodias simples com pouca mudança de notas e uma tessitura menor que uma oitava;
− monofônico (uma única linha melódica);
− diatônico (escalas sem alteração cromática ou microtonal);
− modal (escalas de sete sons, ligeiramente diferentes das nossas escalas);
− o ritmo depende das palavras, portanto é livre de fórmulas de compasso;
− não tem preocupação com a dinâmica;
− o andamento, geralmente, é lento;
− os compositores são anônimos, pertencentes ao clero.

A melodia do canto gregoriano depende da forma do poema e se desenvolve numa linha quase que infinita, descendo e subindo por graus conjuntos e com raros saltos intervalares. Ela tem caráter sereno e é uniforme em suas nuances.

Não havia um regente, apenas os ensaiadores ou professores de canto que regiam o grupo com o rolo da partitura, apelidado de "solfa" (uma espécie de brincadeira com os nomes das notas - e daí vem a palavra "solfejo", treino melódico-rítmico). Escrevia-se a música com bico de pena de ponta quadrada e tinta em um rolo de pergaminho, de cor bege.

No século 19 esta música foi batizada, pelos monges de Solesmes (França), de "canto gregoriano", em homenagem àquele papa. Também recebeu o nome de "cantochão" ("cantus planus" em latim) no século 13, para diferenciá-lo do "canto mensurado", quando inventaram as figuras rítmicas,



Canto Gregoriano: como e porque foi sufocado no seu próprio berço

Por Sandro Magister

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=canto_gregoriano&lang=bra

(Versão nossa do original italiano, publicado no site www.chiesa.espressonline.it com a permissão do jornalista Sandro Magister, a quem agradecemos)

O prior do mosteiro "Papa Gregorio Magno", de Roma, enriquece com novos detalhes a narrativa do desastre musical depois do Concílio (Vaticano II). Vaticano que até hoje não faz nada para remediar.


ROMA - No dia 22 novembro, festa de Sta. Cecília, padroeira da música, João-Paulo II ouviu um concerto em sua homenagem. No dia seguinte, domingo, no Angelus, ao meio dia, enviou uma saudação especial à Orquestra Filarmônica de Viena, ainda em Roma para apresentar a ele "A Criação", de Franz Joseph Haydn na basílica de São Paulo fora-dos-Muros.

O Papa agradeceu a "todos que colocam seu talento e sua capacidade musical ao serviço da liturgia". Lembrou ainda que no dia 22 de Novembro de 2003 completou-se o centenário do motu próprio "Inter Sollicitudines", de S. Pio X: documento pelo qual o pontífice ditou uma reforma na música sacra ocidental, purificando-a das degenerações teatrais em moda na época, restabelecendo centralidade e esplendor ao canto gregoriano, ao polifônico e ao papel do órgão.

Exatamente cem anos. Tempo em que houve um concílio ? o Vaticano II - que re-confirmou plenamente a primazia do gregoriano, da polifonia e do órgão. Mas houve também uma nova e devastadora degeneração na música da Igreja, de dimensão e gravidade tais que exigem uma nova reforma, não menos enérgica daquela intencionada por Pio X.

O centenário da "Inter Sollicitudines" era esperado por alguns, dentro e fora do Vaticano, como o dia certo para um novo documento papal visando a renovação da música litúrgica.

Esperava-se, particularmente, a constituição de uma instituição pontifícia dotada de autoridade na matéria.

No entanto, a festa de Sta. Cecília de 2003 passou, e nada daquilo até agora aconteceu.

No Vaticano, sabe-se, domina uma corrente hostil à primazia do canto gregoriano e do polifônico. Dentre as altas personalidades do governo central da Igreja, a única a movimentar-se contra a corrente é o cardeal Joseph Ratzinger.

Em muitas ocasiões, Ratzinger associou a degeneração da música sacra às formas destrutivas ocorridas, em larga escala, durante a implantação da reforma litúrgica, decidida pelo Concílio Vaticano II.

Música e liturgia, unidas no bem e no mal. O florescimento de uma não pode existir sem a outra. Do mesmo modo, a decadência arrasta as duas.

O terremoto que nos anos Sessenta do século XX causou quase o desaparecimento do canto gregoriano foi, de fato, o golpe de uma distorcida aplicação da reforma litúrgica conciliar, especialmente por parte da elite da Igreja.


O texto deste terremoto, abaixo transcrito, é um testemunho de extraordinário valor.

O autor, monge beneditino, conta como o seu mosteiro abandonou repentinamente o canto gregoriano, na metade dos anos Sessenta, para abraçar novos e improvisados modos musicais.

A mudança veio com rapidez fulminante, praticamente de um dia para o outro.

E não foi num mosteiro qualquer. Foi no mosteiro beneditino camaldolense de S. Gregório al Celio, em Roma, onde se conserva a cátedra de mármore do Papa Gregório Magno, pai do canto litúrgico típico da Igreja do Ocidente, por isso chamado gregoriano. Não podia haver outro lugar simbolicamente mais significativo.

A mudança foi forçada praticamente pela unanimidade e aprovada pelo prior da época, Dom Benedetto Clati, pessoa de alto relevo no catolicismo italiano na segunda metade do século XX.

O narrador, Pe. Guido Innocenzo Gargano, seu sucessor, é o atual prior do mosteiro de S. Gregório, sendo também mestre espiritual de grande relevância.

Ele incluiu a narrativa daquele terremoto musical e litúrgico em seu livro ""Camaldolesi nella spiritualità italiana del Novecento", publicado em 2000. Poucas páginas adiante, o autor reconhece que ele e os outros monges "não estavam de forma alguma preparados tecnicamente àquela música", mas que se viram obrigados a "tornar-se poetas e músicos" para substituir o gregoriano com novos cânticos da moda.

Desde então já se passaram quase quarenta anos e um certo ajuste foi feito. Porém, o que resultou de concreto foi que nas liturgias daquele mosteiro romano, fundado pelo Papa Gregório, o canto gregoriano nunca mais voltou.

Eis, pois, a narrativa de como aquele canto foi arrastado para o exílio, nos agitados anos do Concílio Vaticano II:

Aquela noite em S. Gregório

Guido Innocenzo Gargano

[...] A adoção da língua vulgar na celebração do ofício divino chegou na comunidade como uma explosão de uma bomba.

O ofício divino, cantado na língua vulgar, significava uma ruptura irreparável com uma das tradições mais sagradas, mantidas por séculos em todo o monaquismo latino ocidental: o canto gregoriano. [...]

Tudo foi provocado na comunidade camaldolense pelo incandescente debate ocorrido na sala conciliar, entre os defensores do latim e os propugnadores do vulgar. [...] Os monges mais moços não só haviam apoiado, obviamente, a introdução da língua italiana na liturgia, mas estavam impacientes, a ponto de não querer esperar que as novidades, já aprovadas no Concílio, fossem confirmadas oficialmente. Uma vez reconhecido o absurdo do latim, era necessário mudar! [...]

Os jovens começaram a sentir-se autorizados a fazer as próprias experiências clandestinamente, como os carbonários. De fato, não se tratava somente de traduzir a oração litúrgica da língua latina para a italiana, mas também procurar diferentes vias no plano musical. E, vista a íntima conexão entre o latim e o canto gregoriano, os jovens decidiram, sem consultar ninguém, que deveria ser deixado de lado, ao menos no momento, também o sublime canto gregoriano.

Assim, nos porões da Igreja de S. Gregório al Celio, instalaram imediatamente, sem conhecimento dos superiores, uma verdadeira banda, suficientemente adaptada à finalidade desejada.

Depois de "idas e vindas", de discussões sem fim com os improvisados mestres de capela, decidiu-se que, no domingo da qüinquagésima, o grupo estaria suficientemente maduro para se apresentar numa celebração litúrgica semi-oficial, com guitarras, tambores e cantos inéditos compostos em italiano.

O local pré-escolhido foi a capela Salviati, situada à esquerda da igreja. O celebrante seria um padre, aluno do Instituto Litúrgico Anselmianum, hospedado no vizinho Hospitium Gregorianum.

Tudo se desenvolveu com a maior seriedade e satisfação de todos. Porém, ninguém se importou que exatamente naquele domingo, durante a celebração, houve a visita turística à capela de um senhor que depois foi embora estupefato. Aquele estranho senhor, apressou-se a denunciar o escândalo ao vicariato.

Interferiu, então, o Cardeal [Angelo] Dell'Acqua, naquele tempo vigário de Sua Santidade, para a diocese de Roma. Repentinamente o céu desabou sobre o inocente prior geral, Pe. Benedetto [Calati], que veio a saber naquele mesmo momento o que tinham combinado os seus jovens monges, e a gravidade das assustadoras conseqüências.

Todo preocupado, Pe. Benedetto convocou o conselho conventual. [...].

Os monges ouviram a reprimenda em silêncio, com olhos baixos, mas nada convencidos de terem cometido qualquer delito. E, quando o Pe. Benedetto obrigou individualmente a todos os envolvidos a tomar uma posição pública sobre o erro cometido, balançou em sua cadeira ao constatar a determinação de todos, e de cada um, em defender a posição do grupo dos "descabelados" - assim se denominavam secretamente aqueles ardilosos monges - que acusaram os superiores de terem medo de aplicar o que já havia sido claramente assinalado nos debates da assembléia conciliar.

Neste momento, o Pe. Benedetto, totalmente abandonado, fechou-se em sua cela. Estávamos todos abandonados, embaraçados. Em silêncio.

À noite, como ele não fora jantar e nem aparecera para a oração das completas, pediram-me que fosse procurá-lo, como mediador.

O resultado foi tão inesperado que não pareceu real.

"Bem", respondeu Pe. Benedetto, "faremos tudo como vocês disseram. A partir de amanhã celebraremos a Missa e todo o ofício em italiano".

Das palavras aos fatos: de repente, alguém se descobriu poeta; outro, tradutor, e todos se tornaram profundos conhecedores de cantos e de partituras.

Pe. Benedetto, por sua vez, quis dar a todos uma grande demonstração de coragem, permitindo remover o altar e construir um novo, voltado para o povo. Agora a sorte já estava lançada [...]

[De Guido Innocenzo Gargano, "Camaldolesi nella spiritualità italiana del Novecento - II", Edizioni Dehoniane, Bologna, 2001, páginas 112-115]



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