SEÇÃO Estudos Bíblicos
CATEGORIA Teologia    -
     Terça, 21 de Outubro de 2014

Estudos Bíblicos      Teologia       -

Capítulo 2 - Onde Ocorreram os Eventos Narrados no Antigo Testamento?

Publicado em 2/27/2008

Alexandros Meimaridis - petrakis_adm@yahoo.com.br
JesusSite

Introdução.

A Revelação contida no Novo Testamento é distinta daquela contida no Antigo Testamento. A história registrada no Novo Testamento nos fala que Deus se revelou à humanidade por meio da encarnação, ou seja, na pessoa de Jesus de Nazaré, Deus tomou a forma humana. Isto significa que a revelação de Deus ocorreu em um tempo e lugar específicos. Assim, para entendermos o Novo Testamento, precisamos estudar os acontecimentos da vida de Jesus e da igreja primitiva[1] . A história e a geografia do mundo palestino durante o primeiro século apresentam um pano de fundo importante para a leitura do Novo Testamento.

Mesmo sem uma revelação do mesmo tipo, isto é, sem uma encarnação por parte da divindade, a verdade de Deus também foi revelada no Antigo Testamento. Deus se revelou em tempos e lugares específicos para um grupo específico de pessoas. Portanto, é importante que os cristãos compreendam a época em que os eventos narrados no Antigo Testamento tiveram lugar.

I. Os Locais Onde Ocorreram os Eventos Narrados no Antigo Testamento?

A nação de Israel da Antiguidade ocupava apenas uma pequena parte de uma área maior conhecida como o Antigo Oriente Próximo. Esta região é conhecida e chamada em nossos dias como Oriente Médio. Os limites desta extensão de terra são os seguintes:

  • No Leste as Montanhas Zagros[2].

  • No Oeste o mar Mediterrâneo.

  • Ao Norte, os limites do Antigo Oriente Próximo se estendiam até o Mar Cáspio e o Mar Negro, tendo entre eles as montanhas do Cáucaso[3].

  • Ao sul, o Antigo Oriente Próximo fazia fronteira com o Deserto da Arábia e os dois corpos de água conhecidos como Mar Vermelho e Golfo Pérsico.

A terra conhecida desde tempos imemoriais como "Terra de Canaã" ocupava uma pequena, mas bastante significativa porção de terra do Antigo Oriente Próximo. A localização privilegiada da Terra de Canaã, no entroncamento entre três continentes - África, Ásia e Europa - acabaram por transformá-la em um pedaço estrategicamente importante ao longo da história antiga. Tal posição privilegiada despertou o interesse de todas as nações da Antigüidade que tentaram, de todas as maneiras possíveis, manter uma posição de domínio ou pelo menos de certo favorecimento sobre a mesma. Esta atitude se manifestava por dois motivos a saber:

  • A região era importante por causa da necessidade que existia de comunicação e comércio entre os três continentes que a mesma interligava.

  • Para nós que estamos estudando o Antigo Testamento compreendermos esta situação nos ajuda a entender a enormidade de influências culturais a que estavam sujeitos seus habitantes, incluindo-se o povo de Israel.

A. O Antigo Oriente Próximo.

Quando estudamos o Antigo Oriente Próximo logo entendemos que o mesmo está dividido em três sub-regiões geográficas. Estas regiões estão unidas por um arco de terra fértil que foi chamado desde a Antigüidade de "Crescente Fértil. A maior parte "da área do Antigo Oriente Próximo era desértica e pouco propícia à manutenção da humana. As poucas terras férteis estavam enquadradas entre montanhas quase intransponíveis ao norte e vastos desertos ao Sul. Todavia dentro da área que chamamos de Crescente Fértil existiam terras planas e abundância de água. A Bíblia e a arqueologia moderna concordam que esta é a região onde se originou a civilização humana.

As três regiões geográficas contidas no Antigo Oriente Próximo eram: Mesopotâmia[4] , Egito e Síria-Palestina. Como não existe vida sem água estas três regiões foram marcadas na Antigüidade por importantes culturas ligadas aos rios.

1. A Mesopotâmia.

O que acabamos de referir acima fica melhor evidenciado pela primeira região conhecida como Mesopotâmia, que se localizava entre os Rios Eufrates[5] e Tigre[6] . Esta região iniciava no Golfo Pérsico ao sul e se estendia rumo noroeste, ao longo da curva do Rio Eufrates. O limite leste é o Rio Tigre que corre aos pés das Montanhas Zagros no moderno Irã. Nos dias de hoje, todo o Iraque e partes do Irã, da Síria e o Líbano compõe a área conhecida como Mesopotâmia.

O terreno físico da Mesopotâmia é típico de toda aquela região: altas cadeias de montanhas ao norte e leste e desertos escaldantes ao sul. Esta mistura é certamente responsável pelo clima imprevisível da região. Além disso, as águas dos rios Eufrates e Tigre são cheias de caprichos e movimentos de inundações e secas realmente súbitas. Estes fatores consistiam em um perigo constante e real para todos os habitantes da Mesopotâmia. Em decorrências destas realidades, enchentes e secas, especialmente a região sul da Mesopotâmia, variava sempre entre um terreno desértico e um terreno pantanoso. Se invasores conseguissem vencer o deserto ou as montanhas não havia nenhum outro tipo de defesa natural para proteger seus habitantes.

Mesmo diante destas realidades e da permanente possibilidade de invasões, a Mesopotâmia era capaz de proporcionar uma vida relativamente tranqüila para aqueles viviam por ali, especialmente na região sul, onde as águas dos rios podiam ser canalizadas para a irrigação das plantações ou serem navegadas com fins comerciais.

Existe um inusitado consenso entre os estudiosos da Antigüidade quanto ao fato de que a civilização humana teria se iniciado na base das montanhas ao Norte do rio Tigre, quando os mesopotâmicos do Período Neolítico - cerca de 7.000 a.C. - começaram a cultivar plantas, domesticar animais e colher frutos para seu sustento. A Bíblia nos ensina que o Jardim do Éden estava plantado exatamente entre quatro rios, dois dos quais são o Eufrates e o Tigre - ver Gênesis 2:10. De que maneira poderia Moisés, que escreveu o livro do Gênesis e que viveu por volta de 5600 anos depois da data estabelecida pelos historiadores para o início da civilização humana, saber que a mesma teve origem precisa e exatamente no mesmo local apontado pelos historiadores? A resposta pode ser uma somente: Deus revelou.

Foi no sul da Mesopotâmia que, entre 3500 a 3300 a.C., os sumérios inventaram a escrita quando descobriram que podiam usar marcas cuneiformes[7] em diferentes materiais para representar palavras[8]. A escrita cuneiforme - do latim cunes que quer dizer cunha e do latim forma que quer dizer formato - era mais facilmente reproduzida em porções de barro úmido, que era um material muito fácil de ser encontrado naquelas partes da Mesopotâmia. Eram comum "assar" as placas de barro no sol ou em forno. Desta maneira eram obtidas placas extremamente duráveis com escrita cuneiforme, e muitos milhares destas placas já foram encontradas por arqueólogos modernos. A escrita cuneiforme também podia ser entalhada em metais e pedras, mas estas práticas eram bem menos comuns.

Aquela vida, razoavelmente tranqüila do sul era motivo de inveja, especialmente dos povos vindos do norte. Como não possuíam defesas naturais os habitantes do sul precisavam manter atenção permanente sobre possíveis ameaças externas. A história antiga da mesopotâmia está pontilhada pelo fluxo de inúmeros grupos. Este fluxo foi o responsável por muitas alternâncias de poder naquela região. Os sumérios foram sucedidos por uma longa séria de povos semitas de diferentes nacionalidades. Durante o último quarto do terceiro milênio - entre 2250 e 2000 a.C., o primeiro grupo de semitas, os acádios, chegou ao poder e ocupou o sul da Mesopotâmia junto com os sumérios. Todavia tal domínio não foi muito extenso, pois na virada do milênio, outro grupo semita, conhecido como os amoritas, começou a chegar à região em grandes números. Os amoritas são importantes porque dominaram a Mesopotâmia pelos 1000 anos seguintes da história. Eles estabeleceram um grande foco de poder ao sul na cidade de Babilônia, no Eufrates, e ao norte, em Assur e Nínive, ao longo do rio Tigre. A herança dos amoritas pode ser vista pelo fato dos babilônios ao sul e dos assírios ao norte terem sido os dois grupos mais importantes na Mesopotâmia e que tiveram como iremos ver, um papel significativo na história do Antigo Testamento.

2. O Egito.

Na região do Egito antigo não existiam cadeias de montanhas, mas a presença de desertos e de um rio, o rio Nilo[9], acabaram por reproduzir muitas das características geográficas que tornaram possível a civilização Mesopotâmica. Todavia existe uma diferença significativa concernente ao desenvolvimento destas duas civilizações. Enquanto a Mesopotâmia encontramos um desenvolvimento lento e gradual desde a Idade da Pedra até o começo da história humana, o Egito parece ter, da noite para o dia, pulado do Período Neolítico - fim por volta do ano 4200 a.C. - para uma cultura urbana. Mas existem muitos historiadores que acreditam que tal desenvolvimento, mesmo súbito, pode ser atribuído a prováveis influências da Mesopotâmia no Vale do Nilo. Especula-se inclusive que o desenvolvimento de hieróglifos - do latim hiroglyphicos que quer dizer escrita sagrada - pode ter sido influenciado pela escrita cuneiforme da Mesopotâmia.

Heródoto de Halicarnassus, que é considerado o primeiro historiador da Antigüidade, descreveu o Egito de um modo muito apropriado dizendo que ele era "uma dádiva do Nilo"[10]. O Nilo é sem dúvida, a característica geográfica de maior relevância do Egito. Como tal ele teve um papel importante tanto na história quanto na perspectiva cultural do povo que habitou às suas generosas margens. No seu último trecho o rio Nilo se estende por 960 kilômetros no deserto do norte da África até ao Mar Mediterrâneo. Desta maneira o rio proporciona um grande contraste entre os campos férteis às suas margens e os desertos que existe de ambos os lados[11]. O contraste causado pelas margens negras do rio Nilo emolduradas pelas areias vermelhas e escaldantes dos desertos eram uma permanente lembrança do contraste que existia entre a vida abundante em energia provida pelo rio Nilo, e a morte representada pela esterilidade das areias dos desertos. Os egípcios chamavam o solo rico do vale do Nilo de "terra preta" e os areias do deserto mais adiante de "terra vermelha"[12]. Estas expressões denotavam a grande consideração que os egípcios nutriam pelas águas do Nilo e o temor pavoroso que nutriam pelos desertos.

A vasta maioria da população do Egito antigo vivia nas terras férteis do vale do rio, que se estendiam por não mais do que quinze kilômetros da margem do rio. O rio Nilo não possui afluentes e o tempo absolutamente seco dos desertos impedem a formação de nuvens de chuva sobre o Egito. Assim, não chove sobre todo o país, com uma única exceção que é a costa às margens do mar Mediterrâneo. Desde os primeiros registros escritos nós podemos observar que os egípcios sabiam o quanto dependiam do rio Nilo para manter a fertilidade da chamada "terra preta" da qual dependia a subsistência da nação. Os egípcios acreditavam que o seu rei-deus - o faraó - era o verdadeiro responsável pelas cheias anuais do Nilo. Esta cheia anual era de importância vital para a prosperidade no Egito, pois as águas traziam camadas ricas em sedimentos que renovavam o solo, tornando a "terra preta" do Egito em um dos solos mais férteis do mundo. Mas os egípcios não entendiam que a estação das chuvas intensas no hemisfério sul era a verdadeira causa responsável pelas inundações que, de forma previsível, aconteciam todo mês de junho, e que alcançavam seu auge em setembro. A partir daí um decréscimo constante era notado até que as águas voltassem ao seu nível normal no mês de novembro.

O rio Nilo é como o nosso rio São Francisco com respeito à direção com que se desloca. Como o nosso "velho Chico" o rio Nilo corre do sul para o norte. Este fato somente é suficiente para causar fortes contrastes entre o norte e o sul do Egito antigo. O sul que era chamado de Alto Egito tinha como sua principal distinção o comprimento do Nilo. Já o norte chamado de Baixo Egito era distinguido pelo delta criado e através do qual o Nilo se abre e desemborca no Mar Mediterrâneo. Esse contraste resultou em diferenças significativas de linguagem, de cultura e da maneira de ver a vida. O Alto Egito era provinciano e conservador e dependia da criação de gado e das plantações às margens do Nilo. O Baixo Egito, por sua vez, interessava-se pelo comércio devido ao seu acesso aos portos da Europa e Ásia. Por este motivo o Baixo Egito era constituído por pessoas que possuíam uma compreensão do mundo que era, de forma predominante, internacional e cosmopolita. Unir estes dois grupos tão distintos foi a primeira grande tarefa dos faraós. Não é à toa que os primeiro faraós a estabelecerem um firme controle sobre os dois reinos - do norte e do sul - se preocuparam em fundar e manter a cidade de Mênfis. Esta cidade tinha uma localização estratégica, a meio caminho, por assim dizer, entre os dois reinos e se localizava próxima de onde se inicia o delta do rio Nilo, ou seja mais ou menos onde o Alto Egito terminava e onde começava o Baixo Egito. A cidade de Mênfis teve papel primordial na unificação do Egito.

Por estar cercado por deserto ao leste e ao oeste e por contar com a proteção do mar Mediterrâneo ao norte o Egito, ao contrário da Mesopotâmia, gozava de certa reclusão do mundo exterior. O mar e os desertos serviam como barreiras geográficas. Isto representou para o Egito certos privilégios não desfrutados pelos mesopotâmicos. Ameaças ocasionais, todavia, surgiam aqui e ali. A Líbia ao oeste era um incômodo bem como algumas invasões procedentes do mar Mediterrâneo. Mas a preocupação mais comum quanto à segurança dos egípcios eram os invasores da Ásia, do outro lado da extensão de água que hoje chamamos de Canal de Suez. Com raras exceções, entretanto, os egípcios foram capazes de conter tais ameaças simplesmente com ações políticas. Comparado à Mesopotâmia, o Egito estava relativamente livre de invasões. Como resultado não encontrou um grande número de infiltrações étnicas e culturais como as que pontilharam a história da Mesopotâmia.

O Egito não experimentou as dramáticas mudanças de poder registradas pela Mesopotâmia. O que observamos na história do Egito é a ascensão e queda das dinastias naturais do próprio país. Algumas dessas dinastias viram o Egito desenvolver grandes impérios de relevância internacional para toda a história do antigo Oriente Próximo. Os períodos de força imperial egípcia podem ser divididos da seguinte maneira:

  • Antigo Império - dinastias 3 a 6 - que se estende de 2700 até 2200 a.C.

  • Médio Império - dinastias 11 a 13 - que se estende de 2000 até 1700 a.C.

  • Novo Império - dinastias 18 a 20 - que se estende de 1550 até 1100 a.C.

É bastante possível que o Egito do tempo dos patriarcas estivesse, provavelmente, no período do Médio Império. Por sua vez o Egito em que Moises viveu e do Êxodo, deve ter sido aquele representado pelo Novo Império. Quando Davi consolidou a monarquia em Israel, o Egito já havia perdido sua posição de superpotência internacional, apesar de continuar a ser de grande influência cultural.

3. A Síria-Palestina.

A Síria-Palestina é o meio do campo entre a Mesopotâmia e o Egito. Ela representa a área que vai, do norte da curva do Eufrates e estende-se ao longo da costa do Mediterrâneo até o sul, no deserto do Sinai. A nação de Israel, que habitava a terra de Canaã, era a região mais ao sul da Síria-Palestina. As grandes culturas de rios da Mesopotâmia e do Egito só foram possíveis graças às características geográficas que levaram à organização e unificação das regiões.

Ao contrário das duas outras regiões, marcadas por longos e poderosos rios, que permitiram a organização da vida e do comércio, a região da Síria-Palestina não possuía rios nem longos nem poderosos. Enquanto na Mesopotâmia e no Egito as características geográficas tornaram possível a unificação nacional em cada uma dessas regiões o mesmo não tinha a menor chance de ocorrer na Síria Palestina.

A Síria-Palestina é caracterizada pela segmentação. Acidentes geográficos de toda sorte, incluindo-se pequenos rios como o Jordão e o Orontes e as vastas diferenças topográficas, acabaram por dividir toda a área em sub-regiões e territórios menores. Durante a história antiga, a Síria-Palestina nunca chegou a ser uma região de civilizações avançadas nem de impérios nacionais. Sua maior importância geopolítica estava atrelada ao seu papel de ponte no Crescente Fértil.

Além de formar uma ponte de terra entre três continentes - Ásia, Europa e África - essa área é marcada por duas outras características topográficas:

  • Primeiro temos a costa leste do Mar Mediterrâneo conhecida como "Levante". Esta costa se estende por mais de oitocentos quilômetros e acabou tornando-se importante encruzilhada de todo o comércio e viagens do mundo antigo.

  • A segunda característica importante da topografia da Síria-Palestina é conhecida como a "fenda do Jordão". Esta fenda é realmente uma grande fissura na superfície da terra que vai, do norte, do Mar da Galiléia ao longo do vale do Jordão e Mar Morto até a costa do Mar Vermelho. Ao norte, a fenda do Jordão corre entre as cadeias de montanhas do Líbano e Antilíbano.

Ao longo da história antiga, os impérios das grandes culturas de rios, do Egito e da Mesopotâmia, buscaram controlar o acesso à Síria-Palestina por motivos econômicos, militares e políticos. Mais tarde os gregos e os romanos também perceberam sua importância estratégica e também a ocuparam com seus exércitos.

Começando nos altiplanos da Síria e do Líbano e movendo-se em direção ao sul a altitude diminui continuadamente. O Mar Morto que tem a sua superfície 405 metros abaixo do nível do mar, constitui-se no ponto mais baixo da terra a céu aberto.

Antes de prosseguir e para evitar enganos devemos esclarecer que a fissura que chamamos de "fenda do Jordão" é em realidade, uma gigantesca falha geológica entre duas placas tectônicas da terra que se estende desde a Síria ao norte até Moçambique no sudoeste da África.

A. Entendendo as quatro sub-regiões de Israel.

Israel é dividido longitudinalmente - sentido norte-sul - em quatro zonas:

  • A zona costeira.

  • A zona das cadeias centrais de montanhas.

  • A zona da fenda do Jordão.

  • A zona das terras altas transjordanianas.

1. As Planícies Costeiras.

As planícies costeiras em Israel são estreitas ao norte. Mas, à medida que a costa inclina-se para o oeste, vão se tornando gradualmente cada vez mais largas ao sul. Esta região de planícies era uma das mais ricas de todo Israel na Antigüidade. Isto se devia a dois fatores preponderantes: o solo fértil e a existência de diversas fontes e lençóis de água próximos à superfície.

Da altura do monte Carmelo e descendo para o sul, a característica mais marcante das planícies costeiras é a quase absoluta falta de portos naturais. A cidade de Jope era a única e honrosa exceção. Ao norte do Carmelo, todavia, a história é completamente diferente. Ali vamos encontrar na cidade de Acco, a pequena Baía de Haifa, que se tornou o mais importante porto de Israel nos tempos do Antigo Testamento. Mais ao norte, entre o Carmelo e as montanhas do Líbano, existem muitos portos naturais por causa da forma irregular como o terreno se ergue do mar. Foram os fenícios que eram marinheiros experientes e mercadores marítimos, que ocuparam essa parte da costa durante a maior parte do período coberto pelo Antigo Testamento, que tiraram grande proveito desses portos. Já os israelitas, de maneira inexplicável, nunca aprenderam a confiar completamente no mar e, com freqüência, pagavam pela tecnologia e pelo conhecimento dos fenícios quando precisavam de qualquer coisa relacionada ao mar - ver 1 Reis 9:26 - 27.

A zona costeira estava dividida longitudinalmente - direção Norte - Sul - em seis sub-regiões:

  • A Planície de Acco.

  • O Vale de Jezreel - único a correr do oeste para p leste.

  • A Planície de Saron.

  • A Costa da Filístia.

  • O Sefelá ou colinas baixas.

  • O Neguebe a oeste ou deserto do sul.

O vale de Jezreel interrompe as terras altas centrais e liga as planícies costeiras a oeste com a fenda do Jordão a leste. O solo deste vale sempre foi extremamente rico e todos os poderes que passaram por ele tentaram controlá-lo. Ainda hoje é um vale realmente maravilhoso. No Novo Testamento o vale de Jezreel é chamado de "Vale do Armagedom".

Durante uma boa parte do período coberto pelo Antigo Testamento, a planície costeira do sul foi o lar de um dos mais ferrenhos inimigos de Israel, os filisteus. Os filisteus estavam concentrados em cinco grandes cidades. Começando nos dias dos juízes e até a ascensão de Davi ao trono, os filisteus lutaram de forma constante com os israelitas nas terras altas centrais.

2. A Cadeia Central de Montanhas.

A segunda zona longitudinal da terra de Canaã é representada por uma vadeia de montanhas que se ergue, de maneira brusca entra as planícies costeiras e a fenda do Jordão. Essas terras altas estavam divididas em quatro sub-regiões:

  • Galiléia.

  • Efraim.

  • Judéia.

  • Leste do Neguebe.

No "Levante" o pico mais representativo é o monte Carmelo que ergue-se a 524 metros apenas. Já na região das montanhas centrais o monte Hermon, ao norte da Galiléia ergue-se a imponentes 2814 metros de altitude. Seguindo em direção ao sul temos a região da Alta Galiléia que possui elevações que vão além dos 1000 metros. Mais ao sul ainda, a Baixa Galiléia ostenta alturas mais modestas na casa dos 700 metros.

As cadeias de montanhas centrais de Efraim e da região de montes da Judéia são bastante parecidas. Essas duas cadeias de montanhas são protegidas, de ambos os lados, por profundos leitos de pequenos rios, o que torna bastante difícil a passagem no sentido do leste para o oeste e vice versa. Na direção norte - sul as coisas são facilitadas por uma estrada que corre ao longo da encosta leste e liga os montes de Efraim com a região de montes da Judéia. Neste percurso estão localizadas algumas das mais importantes cidades pertinentes ao estudo do Antigo Testamento. Entre estas cidades nós podemos citar: Mizpa, Siquém, Siló e Betel em Efraim, e Jerusalém, Belém e Hebron em Judá. O trajeto no território de Efraim era conhecido como "o Caminho" e se estendia de Siquém até Betel. A parte leste do deserto ao sul de Judá - deserto do Neguebe - abriga a continuação dos montes da cadeia central de montanhas.

3. A Fenda do Jordão.

Nenhum acidente geográfico é mais relevante na formação da paisagem da terra de Canaã do que esta que chamamos de "fenda do Jordão". Esta fenda é constituída de uma profunda depressão na superfície da terra que tem uma largura média de quinze quilômetros e desce de uma altitude de aproximadamente cem metros acima do nível do mar ao norte, até mais de quatrocentos metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo à beira do Mar Morto. No centro desta fenda encontramos o Rio Jordão que corre do pé do Monte Hermon até desaguar no Mar Morto.

A Fenda do Jordão pode ser subdividida em cinco regiões, do norte para o sul:

  • O Vale de Hula.

  • Quinerete ou Mar da Galiléia.

  • O Vale do Jordão.

  • O Mar Morto ou Mar Salgado.

  • O Arabá que é a porção que se estende cerca de 20 kilômetros ao sul do Mar Morto.

4. As Terras Altas Transjordanianas.

Uma das características mais marcantes da região leste da Fenda do Jordão é o fato do terreno elevar-se abruptamente formando um extenso planalto que dá lugar ao deserto da Arábia. Esse planalto elevado possui altitudes que chegam a ser bem maiores que grande parte das terras altas centrais. Ao sul, destas terras altas transjordanianas existem elevações de até 1.900 metros, como podemos encontrar nas montanhas de Moabe e de Edom. De fato existe uma montanha tão alta e inacessível na terra de Moabe que o Salmista traçou um paralelo entre a proteção que a montanha oferecia com a proteção que Deus oferece - ver Salmos 94:22 onde existe uma referência direta a esta montanha - chamada de misgabi- e traduzida pela expressão "baluarte" nas nossas Bíblias na versão de Almeida Revista e Atualizada.

As terras altas transjordanianas são divididas pelos cursos de quatro pequenos rios:

  • Jarmuque.

  • Jaboque.

  • Arnon.

  • Zerede.

Estes quatro rios correm por meio a vales profundos desde as terras altas transjordanianas[13] até o Rio Jordão ou ao Mar Morto. Durante a história do Antigo Testamento, estes quatro rios, muitas vezes, formavam fronteiras naturais para nações ou divisões políticas. O rio Jarmuque, por exemplo, formava a fronteira sul das terras de Basã. Ao sul do Jarmuque e até o vau do Jaboque encontrava-se a terra de Gileade. O território entre o Jaboque e o Arnon, por sua vez, pertenceu aos moabitas durante a maior parte do período do Antigo Testamento. Ao sul do rio Zerede estava a região que compunha o território de Edom. Baseados no que acabamos de dizer, as terras altas transjordanianas, podem ser divididas em quatro áreas do norte para o sul:

  • Basã.

  • Gileade.

  • Moabe.

  • Edom.

É importante, todavia, lembrarmos o leitor que durante o período bíblico do Antigo Testamento as fronteiras das terras altas transjordanianas não eram fixas e sofriam variações consideráveis.

No extremo leste, as terras altas transjordanianas, fazem fronteira com o deserto as Arábia. Nos tempos bíblicos, as condições de vida em toda esta região estavam mais atreladas à sua relação com o deserto da Arábia do que com quaisquer outros fatores. O deserto produz ventos escaldantes, os quais, associados aos nômades do deserto dificultavam a manutenção da agricultura bem como o assentamento de comunidades. Por outro lado, as altas cadeias de montanhas que corriam do norte para o sul ladeando a Fenda do Jordão, eram beneficiadas pelas últimas chuvas do Mediterrâneo. Estas chuvas acabavam por propiciar a constituição de umidade suficiente para a criação de ovelhas e para a plantação de trigo.

B. As Principais Estradas do Antigo Oriente Próximo.

A terra de Canaã era cortada por inúmeras pequenas estradas. Mesmo pequenas, muitas destas estradas eram realmente importantes como era o caso do "Caminho" que mencionamos anteriormente.

Mas não era só de pequenas estradas que dependiam as comunicações e o comércio que transitavam por aquelas terras. Também existiam, na terra de Canaã, duas estradas internacionais que devem ser mencionadas com destaque. O curso exato destas duas importantes vias se manteve praticamente inalterado durante todo o período do Antigo Testamento porque, como pudemos ver, a topografia muito irregular da Síria-Palestina dificultava a criação de novas rotas.

1. O Caminho do Mar conhecido como "Via Maris".

O profeta Isaías cita esta estrada em seus escritos chamando-a de "caminho do mar" - ver Isaías 9:1 - no texto original hebraico a citação diz respeito a Isaías 8:23. Para os estudiosos esta expressão, "caminho do mar", faz referência à estrada internacional que acompanhava, de norte a sul, a costa do Levante. Esta estrada esteve em uso durante toda a extensão de tempo coberto pelo Antigo Testamento. Muitas cidades de considerável importância na Antigüidade ficavam próximas ao "caminho do mar". Quando Jerônimo traduziu as escrituras hebraicas para o latim, a expressão hebraica - derek hayam - "caminho do mar", virou "Via Maris". A expressão "Via Maris" foi mais tarde utilizada para designar toda a rede de estradas que, saindo do Egito atravessava a Síria-Palestina e ia até a Mesopotâmia.

A Via Maris se dividia, na altura da planície costeira do sul, em duas partes. De um lado, a oeste, continuava ao longo da costa e do outro lado, a leste, passava pelo Vale de Jezreel até Megido e de lá para Azor e Damasco de onde prosseguia até entrar na Mesopotâmia. A cidade de Megido, que ficava na entrada do vale de Jezreel, funcionava como uma espécie de entreposto para todo o comércio e viagens daqueles que trafegavam pelas várias vertentes da Via Maris.

2. A Estrada do Rei.

Outra rota internacional digna de nota era aquela que foi chamada de "estrada do rei" - ver, por exemplo, Números 20:17e 21:22. Essa estrada começava no extremo sul da terra de Canaã e estendia-se do Golfo de Acaba na direção de Élate e através das terras altas transjordanianas até Damasco. Por causa dos vales que existiam nas terras altas transjordanianas e onde corriam os quatro leitos profundos dos rios que mencionamos acima, a "estrada do rei" seguia um caminho que era de trinta e sete a quarenta e cinco quilômetros a leste de Arabá, até, praticamente a beira do deserto da Arábia.

A "estrada do reis" constituía-se em uma rota secundária entre Damasco e o Egito, e competia, de maneira modesta, com a Via Maris. Caravanas de nômades que transportavam seus produtos comerciais para trocá-los por produtos agrícolas davam preferência a esta estrada. Durante o período da monarquia israelita, devido o aumento do comércio com a Arábia, a "estrada do rei" alcançou importância especial.

O material contido neste estudo foi, em parte, adaptado e editado das seguintes obras, que o autor recomenda para todos os interessados em aprofundar os conhecimentos acerca do Antigo Testamento:

Bibliografia

Aharoni, Yahanan; Avi-Yonah, Michael; Rainey, Anson F. e Safrai, Ze'ev. Atlas Bíblico. Casa Publicadora das Assembléias de Deus - CPAD, Rio de Janeiro, 1998,

Arnold, Bill T. e Beyer, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2001.

Durant, Will. The History of Civilization Volume 1 - Our Oriental Herritage. Simon and Schuster, New York, 1963.

Heródoto de Halicarnassus. The Histories. Penguin Books Ldt, Middlisex, reprinted, 1986.

Hallo, William W. e Simpson, William Kelly. The Ancient Near East: A History. Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1971.

King, Philip J. American Archaeology in the Mideast: A History of the American Schools of Oriental Research. ASOR, Philadelphia, 1983.

Millard, Alan; Stanley, Brian e Wrigth, David. Atlas Vida Nova da Bíblia e História do Cristianismo. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, reimpressão, 1998.

Schoville, Keith N. Biblical Arcaheology in Focus. Baker Book House, Grand Rapids, 1978.

Wilson, John A. The Culture of Ancient Egypt. Chicago University Press, Chicago, 1951.

__________Britannica Atlas. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 1996.

Enciclopédias

__________The New Encyclopaedia Brtannica. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 15th Edition, 1995.


Notas:
--------------------------------------------------------------------------------

[1] Os historiadores definem o período da igreja primitiva como aquele que se estende do início da igreja até o ano 100 a.D. aproximadamente.

[2] As Montanhas Zagros - Kuhhã Ye Zagros - estão localizadas no país moderno do Irã.

[3] As Montanhas do Cáucaso - Bol Soj Kaukaz - estão localizadas nos países modernos da Rússia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão.

[4] Mesopotâmia - do grego mésos - no meio, entre e potamós - rio e que significa entre-rios e designava a extensão de terra contida entre os rios Eufrates e Tigre.

[5] O rio Eufrates é chamado de Buanunu em sumério, Parattu em acádio, Ufrat em persa antigo, Eufrates em grego e latim, Furat em arábico e Firat em turco. O Eufrates é o rio mais comprido do oeste da Ásia e se inicia nas planícies da Armênia, na Turquia moderna, e segue rumo sudeste através da Síria e da parte sul do Iraque onde se une ao rio Tigre para formar o que é chamado de Shatt al-'Arab, que termina por desaguar no Golfo Pérsico. A extensão total do Eufrates é de aproximadamente 2.700 km.

[6] O rio Tigre é chamado de Tigra em persa antigo, de Tigres ou Tigris em grego, de Tigris em Latim, de Idiclat em acádio, na Bíblia é chamado de Hiddekel, de Dijla em arábico e de Dicle em turco. O rio Tigre tem sua origem ao Sul das Toros Daglan - Montanhas Taurus na Turquia - e segue em direção sudeste por aproximadamente 1.900 km em direção ao Golfo Pérsico, quando se junta ao Eufrates e juntos sob o nome de Shatt al-'Arab penetram no Golfo Pérsico. O Shatt al-'Arab possui uma extensão de 193 km.

[7] Escrita Cuneiforme: Sistema de escrita provavelmente inventado pelos sumérios e depois adotado por babilônicos e assírios, constituído de sinais em forma de cunha, produzidos sobre tabletes de argila.

[8] Durant, Will. The History of Civilization Volume 1 - Our Oriental Herritage. Simon and Schuster, New York, 1963.

[9] O Rio Nilo - Bahr An-nil ou Nahr An-nil - é o mais extenso rio da África - 6650 km - e corre do sul para o norte. O rio se inicia no lago Vitória no Quênia e tem seu estuário no mar Mediterrâneo através de um magnificente delta. Sua bacia ocupa incríveis 3.349.000 Km2. O Nilo deságua cerca de 3100 metros cúbicos de água por segundo no mar Mediterrâneo.

[10] Heródoto de Halicarnassus. The Histories. Penguin Books Ldt, Middlisex, (reprinted), 1986.

[11] Os desertos são: a oeste o AS-SARAH AL GHARBIYAH - Deserto do Saara - e no leste AS-SARAH ASH SHARQUIYAH - Deserto da Arábia.

[12] Hallo, William W. e Simpson, William Kelly. The Ancient Near East: A History. Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1971.

[13] A terra de Canaã é dividida, com relação ao rio Jordão em: Cisjordânia que é a área a oeste do rio Jordão e em Transjordânia que corresponde a área a leste do rio Jordão.



RECOMENDAR >> IMPRIMIR >>
10 MAIS RECENTES
Unidade da Igreja de Cristo
Não quero mais ser evangélico
Signos. Porquê?
Mas que Homem é Esse?
Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal
A Integridade Moral do Profeta Eliseu
Contentamento & Transformação
O Brasil precisa de pastores de caráter limpo
PASTORES FIÉIS
Controle da natalidade no mundo ocidental ajudando no crescimento explosivo do islamismo
MAIS >>>

NOTÍCIAS CRISTÃS
Aprovação do PLC 122 será o último ato do governo Lula?
O escândalo homossexual de WikiLeaks
Assassinatos contra gays: dados manipulados
Professor francês é suspenso por mostrar vídeo de abortos para alunos do ensino colegial
Famosa feminista pró-aborto chama bebês em gestação de “tumores”
Desafiando comunistas no púlpito da igreja
Possessão demoníaca agora é politicamente correta
MAIS >>>

ESTUDOS BÍBLICOS
Unidade da Igreja de Cristo
Não quero mais ser evangélico
Signos. Porquê?
Mas que Homem é Esse?
A Integridade Moral do Profeta Eliseu
Contentamento & Transformação
O Brasil precisa de pastores de caráter limpo
PASTORES FIÉIS
Os modernos adoradores de Baal
Os Benefícios de Ter Filhos
MAIS >>>